(H)OUVE AÍ - OS MELHORES AMIGOS DO BJ
EPISÓDIOS
Sunsly Marques
10/10/20256 min read


Bom, todo mundo sabe que a gente é conhecido por ser a terra do sol, onde tem muito humor, calor e riso. Mas a gente sempre sabe que a noite chega, o sol se esconde, o riso vai embora e a fogueira apaga. A única certeza da vida acaba sendo ela, a morte, às vezes ela anuncia a vinda, fazendo a gente fazer de tudo pra adiar essa chegada indesejada, e às vezes, ela aparece do nada, não dando nem tempo pra gente pensar, ou tempo pra gente se despedir.
A história de hoje se passa num ambiente que muita gente não gosta de ir, às vezes, acha até que é mau agouro passar até perto. O Cemitério Parque Bom Jardim é o único de Fortaleza que é completamente público, e lá muita gente se despede, chora e repousa. Mas pensa comigo, isso, quando a gente fala, a gente entende o que isso significa, faz algo surgir no peito, mas, e se eu contar que hoje a gente vai falar de um menino que não sentia absolutamente nada num lugar como esse? Nada, mas nada MESMO! Bom, minha vizinha falava que era por que ele nunca tinha perdido ninguém, por isso era tão tranquilo, já minha mãe falava que era por que ele era muito novo, inocente, que quando crescesse ia começar a sentir o clima pesado. Bom, disso eu não sei, eu sempre achei que o fulanin talvez fosse lá só por que é um lugar realmente muito sossegado, aberto, e cheio de plantas, talvez falando assim até parece fazer sentido ser um lugar pra criança brincar, você só não espera que vá ver uma criança brincando num cemitério de tarde até a noite, imagine a esquisitice, teve um tempo, que juro a você, não se falava em outra coisa.
Luquinhas era um menino como qualquer outro, usava bermuda de tactel, camiseta vermelha que às vezes ele tirava e colocava no ombro por causa do calor, a vó dele gritava o nome dele na hora do almoço, assim como as outras mães e avós, e lá pelas 3 da tarde, ele era um dos primeiros a voltar pra rua, com o sol “já frio”. O problema é que os meninos não gostavam muito de brincar com ele, alguns diziam que ele não corria tanto quanto os meninos, ou que demorava MUITO pra entender as brincadeiras, jogava a bola muito fraco e não aguentava NEM UMA BOLADA DE NADA! Mas a real, que mesmo sendo o “café com leite oficial” ele estava SEMPRE na rua quando tava na casa da vó. Sim, tem isso, Luquinhas morava mesmo com a mãe dele, mas às vezes ele passava um tempo na casa da vó, mãe do pai dele, apesar de nunca ninguém ter visto ele, e Luquinhas sempre mudar de assunto quando falavam sobre.
E isso tem um tempo já, então, desculpa se eu não lembrar dos detalhes direito. Acho que era sei lá, 2005, as meninas ficavam trocando cartinha de rebelde e tinha altas briga de quem ia ser o ranger vermelho no dia, era um tempo bom, a gente brincava na rua ainda, tinha as coisas, mas era bem menos embaçado. E isso, quem me contou foi o próprio Luquinhas alguns anos depois, nesse tempo a gente só se via de longe mesmo, enfim, tem tempo.
O tio do Luquinhas era vigia do cemitério, às vezes quem chamava ele pra entrar era o próprio tio, até por que, quando os menino era mais paia que o normal ele ia pro cemitério, ficava brincando sozinho naquele silêncio reconfortante, onde ninguém iria impedir ele de jogar, correr e de ser ele mesmo, mesmo que ser isso não fosse tãaao diferente assim. Tinha dias em que a avó dormia tão cedo que ao invés de dormir, ele pegava a chave escondido e ia até o cemitério, teve vezes que ele passou até a madrugada toda lá, era como se ele conhecesse cada inseto esquisito, cada gatinho curioso e, por mais mórbido que fosse, já tinha até algumas lápides preferidas que ele gostava de observar.
Acontece que um dia comum de dezembro, mais um daqueles dias que o coitado de Lucas viu que ninguém estava disposto a convencer aos meninos mandões a deixar ele brincar, ele resolveu voltar pra casa antes da vó passar ele pra dentro. Pense num andar triste desse menino? Chutava o chão meio frustrado, fazendo levantar areia pro ar, meio emburrado mas já treinando como não parecer emburrado, afinal, não queria ter que explicar pra vó as coisas que ele também não entendia. mas aí, passando pela grade do cemitério, aconteceu um negócio. “ei menino...” disse uma criança lá de dentro, ele só escutou mesmo, nem olhar olhou, até começo a acelerar o passo, e até teria pegado rumo se o menino não tivesse falado de novo. “quer brincar comigo, tu?”
Luquinhas parou na hora e olhou, só pra ver um menino do lado de dentro um pouquinho afastado da grade usando uma bermuda jeans, uma blusa azul e um sorriso gigantesco. Mas a verdade era que, pra Luquinhas não importava mais nada, afinal, as palavras mágicas tinham sido ditas, sabe aquela hora que a pessoa sorri sem nem sentir o rosto se mexendo? Ele deve ter ficado tão feliz, imagino isso pq ele também parecia empolgado quando contou isso pra mim, mesmo depois de tanto tempo. Ele não só disse sim na hora como correu em direção a entrada do cemitério sem nem pensar, só na frente que lembrou que o tio sempre dizia “Lucas, nada de esculhambação e correria aqui dentro enquanto tá acontecendo funeral! Tem que respeitar o espaço dos vivo e dos que já foram” Luquinhas desacelerou o passo e foi na miúda até uns bancos de pedra que tinham por alí onde estava ele, ainda rindo tão quanto Luquinhas.“Bora correr até aquele banco, aí a gente chega lá e volta. Quem chegar primeiro vence!” Menino, eles só se olharam um instante e já meteram carreira. Luquinhas naquela empolgação foi o primeiro a chegar no banco, mas na hora de fazer a curva já foi sentindo o ar faltando, nisso, o menino passou ele todo satisfeito, mas uma hora dessa Luquinhas já tava mais pra lá que pra cá, botou a mão no peito e foi parando, se corresse mais um pouco era capaz de papocar, ele disse q parou e fechou os olhos pra recuperar um pouco o fôlego, e quando viu, o menino tava do lado dele ajudando ele a andar devagarinho mesmo. Tipo “bora macho, só um instantin, um pouquinho só nois vence”, e aí os dois chegaram, Luquinhas, que já tava um pouco melhor caiu na gargalhada, ele não disse nada ao menino, mas ele tava feliz por que mesmo sendo meio marmelada, e ainda coisa de café com leite, era a primeira vez que ele tinha ganhado alguma brincadeira.
Mesmo assim, ele explicou pro menino que às vezes ele tinha aqueles cansaço e por isso os meninos não gostavam muito de brincar com ele, o menino, que no caso se apresentou como Jûza, disse que não se importava muito com isso, e tava até disposto a brincar de umas coisa que não precisasse correr tanto, nem preciso dizer o quão satisfeito Luquinhas ficou. Oura, ele disse que foram DIAS deles dois brincando no cemitério depois do almoço atéeee de noite, às vezes o tio dele até deixava ele ficar um tico mais tarde que o de costume. Eles faziam obstáculo, pulavam de um banco pro outro, marcaram as pedras que podiam pisar, tentavam fazer estrelinha, era uma esculhambação só, as vezes ele chegava em casa IMUNDO, e mesmo com a vó não gostando tanto da bagunça, tanto ela como o tio tavam felizes em ver Luquinhas daquele jeito, tava mudado pro bem. Mas aí, ele disse que depois do natal, Jûza veio com um papo, na verdade, já fazia um tempo que o Luquinhas percebia que às vezes ele olhava pro orelhão meio desolado, como se quisesse pedir alguma coisa, e queria mesmo, Jûza perguntou se ele dissesse um número, Luquinhas ligava e falava uns negócio. Claro que Luquinhas não gostava de falar no telefone, mas era seu amigo sabe, fora que Jûza falou de um jeito que, sei lá, parecia importante sabe? Disse até que ele podia fazer algo pra Luquinhas em troca, e não que ele já não fosse ajudar, mas aquilo saltou os olhos dele, sabe, e mesmo tendoaté outras coisas que ele queria pedir, não teve outra, ele olhou bem sério até, pro menino amarelo que ele era, e disse “me ajuda a fazer os menino brincar comigo?”.
Jûsa aceitou, o acordo foi feito, eles apertaram as mãos e tudo, combinaram direitinho o que iam fazer e quando iam fazer, que no caso ia ser o ano novo. Mas aí, surgiu a pergunta, o que eles iam fazer primeiro? Tentar falar com os meninos? Ou fazer essa ligação?


