(H) OUVE AÍ - A ESQUECIDA DO PIRAMBU
Expulsa de casa pela própria família, o destino a trouxe de volta para cuidar de quem a esqueceu. Conheça a história real de Iara, uma mulher trans do Pirambu que enfrenta o maior dilema de sua vida: lutar na justiça pela avó com Alzheimer e pelo quiosque da família, ou largar tudo para recomeçar do zero em outra cidade com um novo amor? O conselho que mudará o rumo de Iara está nas suas mãos. Aqui no Pirambu, não se fala em outra coisa.
EPISÓDIOS
Nathaniel Maia
6/8/202612 min read


Oi, gente! Bom dia, boa tarde, boa noite, boa madrugada, bom rolê de bike, boa musculação, boa praia, boa faxina com música no talo, bom cochilo atrasado, porque sim, tem gente que usa podcast de trilha sonora pra dormir, e eu respeito demais esse talento, ou seja lá o que você tá fazendo agora, enquanto nos ouve. Seja bem-vindo, bem-vinda, bem-vinde a mais um episódio do nosso podcast — aquele papo quentinho, tipo café da tarde com amigos: leve, gostoso e cheio de histórias. Hoje o episódio vem com uma energia especial.
A gente vai ouvir a história da Iara, uma mulher trans do Pirambu, em Fortaleza, que abriu o coração pra dividir uma situação difícil e pediu nossos conselhos. É um privilégio e uma responsabilidade, então já te peço: escuta com carinho, se envolve e comenta o que você faria no lugar dela. Pra essa conversa de hoje, chamei duas pessoas incríveis — Sunsly, Eric e Vicky que também são trans — pra somar com a gente aqui. Mas antes, uma pergunta: você é do tipo que vive pedindo conselho ou é quem todo mundo procura quando precisa de um? Porque eu, sinceramente, sou o “Conselheiro 24h”. Adoro ouvir e ajudar, talvez porque me faz lembrar que ninguém tá sozinho nas burradas da vida. Agora, pedir conselho... aí já é mais difícil. Sempre fui de guardar as coisas, até com minha psicóloga. Mas ando tentando mudar, me abrir mais, pedir mais ajuda, deixar a vulnerabilidade entrar — porque às vezes tudo que a gente precisa é ouvir um “vai ficar tudo bem” ou um “para de ser trouxa”. Enfim, esse episódio é uma celebração disso: o poder de ouvir, aconselhar e apoiar. Então prepara o coração, porque a história da Iara vem aí — com emoção, risadas e muita reflexão. Bora nessa?
Oi, gente. Eu sou a Iara, tenho 27 anos, sou do Pirambu, em Fortaleza, e tô aqui pra contar um pouco da minha história — e pedir um conselho, porque, sinceramente, tô num beco sem saída e preciso de uma luz.
Nasci e cresci bem perto da Praia Formosa, num lar simples, com minha avó Dulce, minha mãe e meu pai. Minha infância foi cercada de mar, brincadeiras na areia e histórias que minha avó contava no fim do dia. Ela era minha melhor amiga. A única questão é que ela — e todo mundo — achava que tinha um neto, não uma neta. Desde pequena, eu sabia que aquele nome, aquele papel, não eram meus. Eu nunca me vi como menino. Gostava das bonecas das primas, das roupas da minha mãe, e achava carimba mil vezes melhor que futebol.
Mas minha família era (e ainda é) bem conservadora — minha avó, super religiosa; meus pais, o tipo de conservador hipócrita que fala muito de moral, mas pratica pouco amor. Então, por muito tempo, eu tentei me encaixar, viver o que esperavam de mim, até perceber que isso só me sufocava.
Foi no ensino médio, na EEFM Governador Flávio Marcílio, que comecei a entender melhor quem eu era. Aos 15 anos, comecei a me assumir aos poucos como Iara, nome que escolhi por causa da “mãe das águas” — fazia todo sentido pra quem sempre se sentiu ligada ao mar. Contei primeiro pras minhas amigas Jéssica e Luna, que me apoiaram muito. Aos poucos, o colégio inteiro passou a me chamar de Iara — colegas, professores, até a professora de português, Elizabeth, que sempre me dizia: “Tu tem que ser quem tu é, porque ninguém vive por ti.” A escola virou meu porto seguro.
Mas em casa era outra história. Lá, eu ainda era tratada pelo meu nome morto. Tudo seguia nessa dualidade até que, no segundo ano, uma briga com uma colega chamada Vanessa mudou tudo. No calor da discussão, ela gritou ofensas transfóbicas na frente da turma. Eu respondi, e o barraco foi grande. Depois disso, pra se vingar, ela espalhou pelo bairro que eu era trans — de forma cruel, debochada.
O Pirambu é pequeno, e as fofocas correm rápido. Logo meus pais ficaram sabendo, e a reação foi o pior clichê possível: raiva, vergonha, ameaças. Eles disseram que eu tava envergonhando a família. Eu poderia ter negado, mas decidi ser firme — assumi quem eu era. O resultado foi desastroso: muita violência, muita dor, e o pior, fui expulsa de casa. Minha avó, em vez de me acolher, me chamou de amaldiçoada.
De um dia pro outro, eu tava na rua — sem casa, sem dinheiro, sem terminar a escola. Foram dias terríveis, que ainda me perseguem nos sonhos. Teve momento que eu achei que não ia aguentar. Mas, no meio de tudo, vieram as pessoas certas. Jéssica e Luna me acolheram; a família da Luna me recebeu como filha. Alguns colegas da escola também ajudaram. Foi nessa fase que comecei minha transição e conheci o Thiago, um garoto que jogava bola na escola — ele virou meu primeiro amor e me ajudou a ficar de pé
O Thiago era um cara popular, muito bonito, e também era muito esforçado. No começo, ele me apoiava como ninguém e eu achei que tinha encontrado alguém que me via de verdade. Alguém que era a pessoa certa e que eu passaria a vida toda. Apaixonada, fui morar com ele num quartinho simples, sonhando com uma vida juntos. Mas, aos poucos, com o passar do tempo e a convivência, o Thiago mostrou outro lado e a gente acabou terminando. Eu terminei com ele aos prantos, mas não antes de ele me botar pra fora, mais uma vez me vi na rua com uma mochila e um coração partido em pedaços. Aquela dor me fechou pro mundo; eu me tranquei em mim mesma, com medo de confiar em alguém de novo. Foi quando umas amigas trans, me acolheram num apê apertado, mas cheio de carinho, onde eu passei a dividi o aluguel e comecei a me reconstruir, mais uma vez. As minhas amigas trans me ensinaram a me virar como manicure e eu passei a trabalhar em salões, fazendo unhas na casa das clientes, e conseguindo pagar minhas contas, mas fiquei anos fechada para o amor, evitando qualquer paquera, carregando aquele trauma pesado, até que graças a Deus, apareceu um cara, o Lucas, com uma paciência e um amor que, aos poucos, foram curando minhas feridas e me fazendo acreditar que eu merecia ser amada de verdade. Eu conheci ele pela internet. Nos foguinhos do instagram. Ele é de Juazeiro do Norte, umas quatro horas de Fortaleza, e é um anjo na minha vida. Me ajuda com grana nos momentos que eu tava mais aperriada, me dá apoio emocional e é tão solicito que até nos estudos pra passar no ENEM pra minha faculdade de psicologia ele me ajuda. Não sei se o homem perfeito existe, mas sempre que eu vejo o brilho dos olhos de Lucas, acompanhado daquele sorriso que faz até o sol ficar tímido e que só perde pro abraço dele de tão caloroso que é, eu tenho quase certeza que sim. Sempre que pode, o que infelizmente não é muito, Lucas vem me visitar, e quando a gente tá junto, parece que o tempo passa na velocidade 3. A gente sonha e até já conversou várias vezes de ter uma vida juntos. Na nossa vida perfeita, eu entraria na faculdade de psicologia e ele, que trabalha em uma grande empresa de comércio, finalmente conseguiria a vaga que a tempos ele tá pleiteando aqui em Fortaleza. A gente iria viver juntos, se casaria e começaria uma família. Mas, como a vida não é um mar de rosas e nem pergunta qual os meus planos, as coisas começaram a se complicar. Há uns meses, perdi o emprego no salão onde eu trabalhava. A dona disse que “tava cortando gastos”, mas eu sei que foi porque algumas clientes reclamaram de serem atendidas por uma pessoa trans. Fiquei sem chão, dependendo só com meus clientes em domicílio, mas eles não são o suficiente pra eu conseguir segurar as pontas e acabo tendo que recorrer ao Lucas e até as minhas amigas pra não cair no buraco.
Até que eu descobri que minha vó tava com Alzheimer, quando encontrei no mercado uma mulher que eu vou chamar aqui de Dona Socorro, que mora na vizinhança da minha vó, que sempre foi muito fofoqueira, mas que apesar de tudo tem um bom coração, me ligou do nada. Ela disse que viu minha vó andando perdida pela praia, sem saber onde tava, perguntando por mim como se eu ainda fosse criança. Dona Socorro disse que levou ela pra casa e percebeu que meus pais, que nunca foram lá muito exemplos de carinho, tavam só sacando a aposentadoria dela e deixando ela largada na casa onde eu cresci. Pagavam uma menina lá pra ser cuidadora, mas ela só fazia o mínimo, tipo dar comida fria e trocar roupa de qualquer jeito. A casa tava imunda e o quiosque que minha vó tinha na praia, tava abandonado, caindo aos pedaços.
Quando ouvi isso, meu coração apertou de um jeito que eu não sei explicar. Apesar de tudo, minha vó, mesmo com seu preconceito, sempre foi importante pra mim, sempre foi minha referência de força e imaginar que ela tava assim, desmoronando aos poucos, esquecendo do mundo, e meus pais não tavam nem aí pra ela, mexeu muito comigo. Fiquei com raiva, com pena, com saudade de quando ela contava histórias, mas também senti uma vontade enorme de protegê-la, mesmo depois de tudo que passamos. Eu confesso que eu ainda tava receosa, mas depois de conversar com o Lucas eu resolvi ir lá, fui visitar ela, morrendo de medo de como ela ia me receber, pra ver com meus próprios olhos o que tava acontecendo.
Quando voltei pra casa da minha vó no Pirambu, foi como cutucar um pedaço do passado que ainda doía. Quando eu cheguei lá, a minha chave ainda abria aquela porta. Eu tava muito nervosa, tava com o coração na mão. Eu encontrei ela sentada na sala, com a TV ligada, mas ela tava parada olhando pro mar pela janela com um olhar perdido. Quando me viu, ela sorriu, mas perguntou quem eu era. Não sei se foi o meu subconsciente, se foi por impulso ou por costume, mas eu disse que era a Iara e expliquei que eu era a neta dela. Pra minha surpresa, ela tava tão perdida por causa do Alzheimer que esqueceu que eu sou trans. Ela me chamou de “minha netinha” e me tratou com um carinho que eu nunca tinha visto. Chorei horrores, mas também senti um alívio.
Sentei do lado dela, segurei sua mão, e conversamos por horas, eu contando histórias da minha infância, como quando a gente ficava cuidando no quiosque dela na praia, dos clientes estranhos que apareciam e as vergonhas que a gente já tinha passado nesses tempos, e ela rindo, às vezes mesmo sem entender, mas com os olhos brilhando de um jeito que eu não via desde quando eu era pequena. Tava com tanta saudade daquele sorriso, daquela vó, que deixei as mágoas de lado por um momento e eu só quis aproveitar. Ela não se lembrava de tudo, mas, naquele momento, senti que tava matando um pedacinho da saudade que carregava. Antes de eu ir embora, quando a gente tava se despedindo, ela perguntou, confusa, pelo neto que ela achava que tinha, falando o meu nome morto. Eu só disse que ele tinha viajado, ela então me pediu pra mim mandar uma abraço pra ele e avisasse para ele aparecer lá que ela tava com saudades dele. Eu apenas sorrir com os olhos cheios de lágrimas e disse que ia passar o recado.
Fui embora decidida a voltar sempre, mesmo sabendo que ela podia não me reconhecer de novo. Compartilhei com o Lucas e com as minhas amigas tudo que tinha acontecido na visita e eles me apoiaram. No dia seguinte, confrontei meus pais, indignada, perguntando por que tavam deixando ela tão abandonada, só pegando a aposentadoria e pagando uma cuidadora que mal fazia o básico pelo qual era paga. Fiz um pequeno barraco mesmo e eles ficaram na defensiva, mas depois de um tempo, sem querer brigar mais, se ofereceram para me pagar pra cuidar dela. Fiquei receosa por um momento, mas aceitei, não só pela grana, que eu não tava em condições de recusar, mas também porque queria garantir que minha avó tivesse carinho e um fim de vida digno. Então comecei a visitar ela todo dia, limpando a casa, cozinhando as comidinhas que ela amava, lavando as roupas, dando os remédios e até fazendo as unhas e o skincare dela. Com o tempo eu decidi sair da casa que eu dividia com as minhas amigas e Resolvi ficar por lá mesmo. Passei a morar com ela.
Mas gente, o dinheiro que meus pais me pagavam era uma maxariazinha de nada! Mal cobria a comida e as contas da casa, que, mesmo sendo humilde, pesavam no bolso. Foi aí que olhei pro quiosque da vó, lá na Praia, bem pertinho, parado, todo empoeirado e esquecido, e pensei: “Por que não?”. Lucas até me ajudou comprando umas coisas pra gente começar e eu comecei devagazinho, limpando as tábuas velhas, pintando com uma tinta baratinha que comprei, e servindo só o básico mesmo, umas águas de coco, uns salgados com sucos e uns pasteizinhos que eu mesma fazia, seguindo as receitas que ela me ensinou quando eu era pequena. Tudo isso enquanto eu cuidava dela que ficava aqui comigo, sentada conversando e vendo o movimento, e, toda vez que ela perguntava pelo meu nome antigo, com aquele olhar confuso do Alzheimer, eu dizia uma coisa, até que passei a falar que essa pessoa tinha morrido. Pra não pesar, todo dia que ela pergunta eu invento uma história diferente, mas meio engraçada e ela sempre têm uma reação diferente, mas nada que deixe ela mal. Eu já inventei de tudo que “Caiu de bicicleta num buraco do esgoto” ou “foi de grande circular pro espaço e não voltou”. Ela sempre ri, com aquele riso rouco, e eu sempre acabo rindo junto, sentindo uma conexão que achei que nunca mais teria ela. Esses momentos, apesar da doença, são como um abraço que matam a saudade de anos. O quiosque, que no começo era só pra garantir uma grana extra pra sustentar a gente, virou um sucesso danado! A galera do bairro começou a aparecer, trazendo amigos, e até os turistas que passam pelo letreiro do Pirambu tavam parando pra tomar um suco gelado e comer um pastel quentinho. A gente passou a oferecer também outros petisco e até uns bons drinks. Convoquei umas amigas minhas para me ajudar no negócio e na divulgação, e, aos poucos, o lugar tá ficando mais movimentado que na época de ouro da vó, e eu sinto um orgulho danado de ver ele brilhando, com as mesinhas cheias de gente e o cheiro de fritura misturado com a brisa do mar.
Mas só que nem tudo é perfeito, né? parece que esse sucesso todo tá mexendo com meus pais. Eles, que nunca deram bola pro quiosque, agora tão com ciúmes, ou sei lá, com inveja de ver que eu tô tendo sucesso e tô dando conta de tudo, fazendo o negócio da família crescer. Começaram a falar em interditar a vó, dizendo que eu “tô querendo me aproveitar” e “tô querendo roubar a herança”, e tão ameaçando me tirar da casa e do quiosque. Isso me deixa com o coração apertado, porque cuidar da minha vó e fazer o quiosque virar um point me dá um propósito que eu nunca senti antes, mas essa briga com meus pais tá me deixando com medo de perder tudo de novo. E eu sei que, se isso acontecer, minha vó vai ficar completamente abandonada. Tô pensando em entrar numa batalha judicial pra garantir que eu possa cuidar dela e, quem sabe, ficar com a guarda legal. Só que isso vai ser uma briga feia e provavelmente demorada na justiça, que eu não sei se tenho forças (ou dinheiro) pra enfrentar.
Pra complicar ainda mais, o meu boy, o Lucas, conseguiu um promoção, o que seria perfeito se essa promoção não mandasse ele para Brasília. Ele tá me chamando pra ir morar com ele, começar uma vida nova lá. Ele é um cara incrível, sempre me apoiou, mas Brasilia é outra cidade, outro estado, outra realidade. Se eu for, vou estar deixando pra trás não só minha vó, mas tudo que eu conquistei e todos que eu conheço. Porém, ao mesmo tempo, eu penso se essa não é uma chance de recomeçar do 0, deixar todo esse meu passado pra trás e de viver com ele, de tentar algo novo. Só que, se as coisas não derem certo lá, vou estar sozinha, sem minhas amigas, sem o quiosque, sem nada e completamente isolada.
Tô num dilema danado. Fico aqui, brigo na justiça pra proteger minha vó e o quiosque, que pode me dar um sustento, mas enfrentando meus pais e todo esse estresse? Ou largo tudo e vou pra Brasilia com o Lucas, começando do zero, com o risco de ficar na mão se não der certo? Minha cabeça tá a mil, e meu coração tá dividido. O que vocês acham que eu devo fazer? Qualquer conselho é bem-vindo, porque, sério, eu não sei mais o que pensar.
ok, galera, agora vem a nossa pergunta, que é tipo um momento de virada no nosso papo: vocês querem que a gente solte a real, com aquela opinião sincera, sem filtro, daquele jeito que é quase um tapa com carinho? Ou preferem que a gente venha com uma vibe mais sensível, compreensiva, tipo um abraço em forma de conselho? Escolham com cuidado, porque, a decisão de vocês pode dar aquele empurrãozinho que vai mudar o rumo da vida da Iara. Então, bora pensar direitinho e escolher com cuidado qual é a vibe que vocês querem pro conselho!



